Existe uma mulher que eu conheço muito bem. Ela acorda antes de todos, organiza a casa, cuida dos filhos, trabalha, ainda liga para os pais no fim do dia para checar se está tudo bem — e quando a cabeça toca o travesseiro, já está pensando no que falta resolver amanhã. Essa mulher é pilar. É ela quem sustenta tudo. E quando ela não está bem, toda a estrutura ao redor treme.

Essa mulher é você. E é também a mulher que eu sou: mãe, esposa, filha, profissional, cuidadora da casa e de quem amo. Conheço por dentro esse peso que raramente tem nome — e sei, de perto, como ele se intensifica por volta dos quarenta, cinquenta anos, quando o corpo também começa a sinalizar a sua própria transformação: o climatério e a menopausa.

Escrevo este artigo não como alguém que observa de fora, mas como alguém que caminha ao lado. E como médica, quero te contar o que acontece no corpo e na mente dessa mulher — e como o olhar integrativo e homeopático pode ser um caminho de cuidado real, individualizado e gentil.

O que é o climatério — e por que ele chega exatamente quando a vida está no pico

O climatério é o período de transição entre a vida reprodutiva e a não reprodutiva da mulher. Ele começa por volta dos 40 anos e se estende até por volta dos 65 anos. Dentro desse intervalo, acontece a menopausa — que é, tecnicamente, o dia em que completamos 12 meses seguidos sem menstruação, em geral por volta dos 50 anos.

Não é doença. É uma fase da vida. Mas é uma fase que mexe com muita coisa.

As variações hormonais, especialmente a queda do estrogênio, são sentidas por cerca de 70% das mulheres, podendo durar em média mais de sete anos. O ciclo menstrual começa a ficar irregular. Os fogachos aparecem. O sono muda. O humor oscila. E tudo isso acontece justamente quando a mulher costuma estar no auge das suas responsabilidades — filhos adolescentes, pais que envelheceram, carreira no pico ou em reconstrução, casamento que precisa de atenção.

É muito para um corpo que também está passando por uma transformação profunda.

Menopausa e ansiedade: o que a ciência nos diz

A ansiedade nessa fase não é frescura nem fraqueza — tem base fisiológica clara. O estrogênio influencia diretamente a produção de serotonina, o neurotransmissor relacionado à sensação de bem-estar e equilíbrio emocional. Quando os níveis hormonais oscilam, essa regulação também se desequilibra.

Estudos mostram que os sintomas depressivos e ansiosos são comuns durante a menopausa, e que as mudanças hormonais se relacionam com alterações em áreas cerebrais como o hipocampo e o hipotálamo, além de influenciar a neurotransmissão da serotonina e do GABA — substâncias diretamente envolvidas no controle da ansiedade.

Entre os fatores que aumentam esse risco estão: histórico prévio de depressão, presença de sintomas vasomotores intensos (como os fogachos), eventos estressantes no período — e, não por acaso, a presença de problemas familiares. Exatamente o terreno em que muitas de nós vivemos.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 reforçou que ansiedade e depressão são manifestações frequentes nessa fase, embora ainda haja muitas perguntas abertas sobre os mecanismos exatos. Diante disso, trato cada mulher individualmente — porque o que a ciência nos diz sobre o coletivo precisa ser traduzido para o que acontece com você, com a sua história e com o seu corpo.

A mulher que cuida de todos — e adoece em silêncio

Ao longo dos anos, percebi um padrão que se repete: a mulher chega ao consultório depois de trazer o filho, o marido, os pais. Ela é a que agenda, a que lembra, a que leva. E quando finalmente senta na cadeira — ou na tela da teleconsulta — ela diz, quase desculpando: “Eu sei que também precisava vir.”

Ela sabe. Só estava esperando um momento que nunca chegaria se ela não decidisse se priorizar.

Pesquisas mostram que o papel de cuidadora — especialmente o informal, aquele que não recebe nome nem salário — está associado a altos níveis de exaustão emocional, ansiedade e piora da qualidade de vida. E esse papel é exercido majoritariamente por mulheres.

O que não costuma aparecer nos estudos, mas aparece muito no consultório, é a culpa. A culpa de pedir ajuda. A culpa de precisar. A culpa de existir com necessidades próprias.

Quero dizer isso com carinho, não com cobrança: cuidar de você não é abrir mão dos outros. É o que torna possível continuar cuidando. Quando você está bem — de verdade, por dentro — tudo ao redor ganha outra qualidade. Sua presença muda. Sua leveza volta. E quem você ama sente isso.

Como a homeopatia olha para essa mulher

A homeopatia tem uma forma particular de enxergar o climatério — e essa forma me é muito cara.

Ela não trata a menopausa como um defeito a ser corrigido. Ela olha para a mulher que está diante de mim: como ela dorme, o que a irrita, como ela chora (ou não consegue chorar), o que a faz sentir mais leve. A partir daí, o medicamento homeopático é escolhido não pelo diagnóstico, mas pela pessoa.

Essa abordagem individualizada é o que diferencia a homeopatia do tratamento coletivo. O medicamento indicado para uma mulher pode ser completamente diferente do indicado para outra — mesmo que ambas apresentem os mesmos sintomas físicos — porque o que define a escolha são os detalhes de como cada uma sente, reage e vive. Não existe receita única para a menopausa, assim como não existe uma menopausa igual à outra.

Alguns estudos e revisões de literatura sugerem associação entre o cuidado homeopático e melhora de fogachos, fadiga, ansiedade e qualidade de vida em mulheres na menopausa — embora as evidências disponíveis sejam heterogêneas e peçam mais pesquisa. E independentemente do que os estudos ainda estejam apurando, a homeopatia sempre cabe — porque ela olha para a pessoa, não para o diagnóstico. Essa mulher que chega até mim não é um conjunto de sintomas de menopausa. Ela é um universo completo: com história, com vínculos, com medos, com desejos. É esse universo que eu cuido.

A homeopatia não substitui a medicina convencional. Quando o quadro exige, trabalhamos em conjunto — com ginecologistas, psiquiatras ou outros especialistas. O objetivo é sempre o melhor cuidado possível para você.

Você também está cuidando de todos — menos de você?

Conversar com a Dra. Gissele

Sinais de que está na hora de cuidar de você

Você não precisa esperar estar no limite para pedir ajuda. Alguns sinais merecem atenção:

  • Ciclos que mudaram: menstruação irregular, ausências, fluxo muito diferente do habitual
  • Sono que não descansa: dificuldade para dormir, acordar no meio da noite, acordar já cansada
  • Ansiedade sem explicação clara: uma agitação interna que não some, mesmo quando tudo “está bem”
  • Irritabilidade desproporcional: reações que surpreendem em você mesma
  • Tensão no relacionamento: uma distância que foi se instalando aos poucos — emocional, às vezes física — e que muitas vezes não é sobre o outro, mas sobre o que está acontecendo dentro de você. Quando a mulher se reconecta consigo, algo muda também na forma como ela se relaciona.
  • Sensação de vazio ou de não reconhecer mais quem você era
  • Fogachos, sudorese noturna, palpitações
  • A impressão persistente de que você está cuidando de todos — menos de você

Esse último não é sintoma clínico, mas é o mais importante da lista.

Quando procurar ajuda — e um convite

Você não precisa estar em colapso para merecer cuidado. Qualquer um desses sinais já é razão suficiente para conversar com uma médica.

Atendo presencialmente em Jacareí, e também por teleconsulta para mulheres em todo o Brasil. Muitas das minhas pacientes chegam exatamente assim: depois de anos cuidando de todo mundo, finalmente decidindo que também precisam ser cuidadas.

Se você está nesse momento, vem cuidar de você.

Este artigo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui a consulta com um médico ou profissional de saúde. Cada pessoa é única, e o cuidado precisa ser individualizado.

Fontes consultadas

  1. Hospital Israelita Albert Einstein — Sintomas e fases da menopausa
  2. SciELO Brasil / Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia — Depressão e ansiedade em mulheres climatéricas: fatores associados
  3. Portal Afya — Revisão sistemática 2023: menopausa eleva risco de depressão e ansiedade?
  4. Brazilian Journal of Health Review — Homeopatia no tratamento das alterações do climatério (2021)
  5. BVS / Associação Paulista de Homeopatia — A homeopatia como tratamento alternativo no climatério
  6. BVS / LILACS — Medicamentos homeopáticos en el tratamiento del climaterio y la menopausia
  7. SciELO Brasil / Ciência & Saúde Coletiva — Sobrecarga no cuidar e suas repercussões nos cuidadores
  8. LILACS / Aletheia — Sentidos de ser mulher cuidadora de um familiar: sobrecarga familiar e acúmulo de atividades