Você já decorou o roteiro. A garganta inflama, a febre chega de noite, o antibiótico entra, a criança melhora — e duas, três semanas depois, tudo recomeça. Outra escola perdida, outra noite sem dormir, outra caixa de remédio na gaveta. E, no fundo, a mesma pergunta: isso é normal? Vai ser sempre assim?

Eu ouço essa pergunta o tempo todo no consultório. E quero começar te dizendo uma coisa: esse ciclo não é aleatório — ele tem um sentido. O corpo daquela criança está se expressando da forma que encontrou. E é exatamente aí que o cuidado começa: buscando entender o que ele está dizendo.

Neste texto eu quero te ajudar a enxergar as faringites, amigdalites e sinusites de repetição em crianças de um outro lugar: não como uma sequência de incêndios para apagar, mas como um sinal que merece ser escutado com calma.

Por que meu filho vive com a garganta inflamada?

A primeira coisa que eu gosto de trazer para os pais é uma virada de perspectiva: todas as crianças da creche convivem com os mesmos vírus e bactérias que circulam pelo ambiente — e nem todas adoecem. As que adoecem, adoecem de formas diferentes: uma tem amigdalite, outra sinusite, outra passa pelo mesmo inverno sem nada. Isso não é acaso.

O que faz a diferença não é só o micróbio — é o terreno. É o corpo daquela criança específica, com sua história, seu sono, sua alimentação, seu mundo emocional, sua constituição. O agente infeccioso encontra uma porta aberta, ou não. E entender por que essa porta — nesse caso, muitas vezes literalmente a garganta e o nariz — está aberta é o que muda o ciclo de verdade.

Isso não significa ignorar o ambiente nem negar que a exposição importa. Significa olhar para além dela — e perguntar o que, nessa criança, está deixando essa região do corpo mais vulnerável do que deveria.

O problema de tratar tudo com antibiótico

Aqui mora um ponto que eu faço questão de esclarecer, porque é onde o ciclo costuma se prender.

A maioria das faringites e dos quadros de garganta inflamada na infância — principalmente quando vêm acompanhados de coriza, tosse e olhos vermelhos — é causada por vírus. E antibiótico não age contra vírus. Ele trata infecções causadas por bactérias, como costuma ser o caso de algumas amigdalites bacterianas e sinusites mais prolongadas. Quando a gente usa antibiótico num quadro viral, ele não encurta a doença e não evita a próxima: o que melhora a criança ali, na maior parte das vezes, é o próprio corpo dela fazendo o serviço, no tempo dele.

Mas há outro ponto que vai além do quadro viral: mesmo quando a infecção é de fato bacteriana e o antibiótico é indicado, eliminar o micróbio de hoje não protege a criança do micróbio de amanhã. Se o terreno continua vulnerável — se a garganta e as vias respiratórias dela continuam com as mesmas portas abertas — a reinfecção é só uma questão de tempo. Tratar apenas o agente sem olhar para o que torna aquela criança suscetível é apagar o incêndio sem perguntar por que o fogo continua voltando.

Usar antibiótico quando ele não é necessário também não é inofensivo. Com o tempo, o uso frequente e desnecessário contribui para a resistência bacteriana — ou seja, os remédios funcionam cada vez menos quando realmente precisamos deles. E o antibiótico não escolhe alvo: ele altera também a flora intestinal da criança, que tem papel central na defesa do organismo. Não por acaso, depois de um ciclo de antibióticos, muitos pais chegam ao consultório com uma nova prescrição na mão — desta vez de probióticos, para tentar restabelecer o que foi desfeito. É um ciclo que se retroalimenta, e que raramente resolve o problema de fundo.

Vale dizer: o antibiótico salva vidas e, quando há de fato uma infecção bacteriana — como em algumas amigdalites estreptocócicas, por exemplo —, ele é necessário e não deve ser adiado. O ponto nunca é evitar o antibiótico por princípio. É usá-lo na hora certa — e, junto com isso, olhar para o que está mantendo aquela criança vulnerável. A homeopatia, no meu cuidado, entra como suporte ao terreno — não como substituta do tratamento convencional nos momentos em que ele é necessário. As duas abordagens não se excluem: se completam, sempre com o bem-estar da criança como norte.

O que costuma estar por trás do ciclo

Quando uma criança sai de uma garganta inflamada e já entra em outra — ou vive com o nariz cronicamente entupido, pingando para sinusite —, sem trégua, a pergunta que eu me faço não é “qual diagnóstico está por trás disso?” — mas “o que está acontecendo com essa criança?”

Na compreensão homeopática que orienta meu cuidado, o que sustenta o ciclo das faringites, amigdalites e sinusites de repetição é um desequilíbrio da energia vital — aquela força que, nessa perspectiva, organiza e regula o organismo como um todo. Quando ela está perturbada, o corpo perde a capacidade de se autorregular e se defender com eficiência. E esse desequilíbrio se expressa em sinais que vão muito além da garganta vermelha ou do nariz entupido: no sono que não restaura, no apetite que some ou que não tem limite, na sede que mudou, no suor que apareceu sem explicação, no humor, na sensibilidade ao frio ou ao calor, na forma como a criança reage ao mundo.

Esses sinais não são detalhes — são a linguagem do terreno. E é justamente essa linguagem que eu escuto na consulta homeopática.

Fatores como alergias respiratórias não tratadas, exposição à fumaça de cigarro, sono fragmentado ou alimentação desequilibrada também entram nessa conversa — não como diagnósticos isolados, mas como expressões de um terreno que precisa de atenção. Eles fazem parte do quadro, e reconhecê-los ajuda a compor uma visão mais completa da criança.

O que muda na abordagem vitalista é o foco: não o micróbio, não o sintoma da semana — mas a criança que adoece. Reorganizar a energia vital é o que permite ao organismo atravessar os desafios do ambiente com mais recursos — e adoecer cada vez menos, e com menos intensidade.

Fortalecer não é o mesmo que suprimir

É aqui que entra o jeito como eu, como médica homeopata, gosto de cuidar: olhando para a criança inteira, e não só para a garganta ou o nariz que inflamam.

Suprimir um sintoma é fazê-lo calar rápido. Cuidar da criança é outra coisa — é perguntar por que aquele corpo está respondendo assim, com que frequência, em quais situações, como ela dorme, como ela come, como ela reage ao mundo. É um cuidado individualizado: a mesma “amigdalite de repetição” pode pedir caminhos diferentes em duas crianças diferentes.

Eu trabalho com a homeopatia como parte desse cuidado integrativo, sempre de forma complementar — nunca em substituição ao acompanhamento pediátrico e aos tratamentos convencionais quando eles são necessários. Não existe fórmula mágica nem promessa de que a criança “nunca mais vai ter dor de garganta”. O que existe é um acompanhamento atento, que considera o conjunto e busca dar à criança mais recursos para atravessar essa fase com menos sustos.

Reconhece esse ciclo no seu filho ou filha?

Conversar com a Dra. Gissele

Quando o corpo pede que a gente pare e escute

Faringites, amigdalites e sinusites que se repetem são, antes de tudo, um convite. Um sinal de que o organismo daquela criança está pedindo um olhar mais atento — não mais um remédio para o sintoma da vez, mas alguém disposto a olhar para o que está acontecendo por inteiro.

É exatamente esse olhar que eu ofereço no consultório. Não chego com um protocolo nem com uma lista de diagnósticos a descartar. Chego com perguntas: como essa criança dorme, como ela come, como ela transpira, como ela reage ao mundo, o que mudou na vida dela antes de o ciclo começar. São essas respostas que revelam o terreno — e é no terreno que o cuidado se apoia.

Se você reconhece seu filho nesse ciclo que não fecha, saiba que há um caminho além de esperar que ele “cresça e melhore” — ou de acumular mais uma caixa de antibiótico na gaveta. Há um cuidado possível que respeita o tempo da criança, fortalece o que ela já tem e confia na capacidade do organismo de se reorganizar quando bem apoiado.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada criança é única e precisa de avaliação individual.

Fontes consultadas

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria — Como abordar a criança com infecção respiratória de repetição
  2. Hospital Pequeno Príncipe — Infecções de repetição nos dois primeiros anos
  3. Portal Afya / Pediatria — Infecções respiratórias: quando prescrever antibiótico
  4. Secretaria de Saúde do Ceará — Uso indiscriminado de antibióticos e resistência antimicrobiana