Você acorda cansada antes mesmo de começar o dia. O trabalho está pesado, as demandas não param, e alguém já te disse que você precisa “descansar mais” ou “aprender a dizer não.” Talvez você já tenha tentado. E mesmo assim, a sensação de esvaziamento continua — como se não fosse só o emprego que estivesse sugando sua energia, mas algo muito mais fundo.

Existe uma pergunta que raramente se faz no consultório quando o assunto é burnout: como você chegou até aqui? Não no sentido das últimas semanas de trabalho, mas no sentido da sua história inteira — da criança que você foi, das lealdades que você carrega, das emoções que nunca tiveram espaço para existir.

É sobre essa pergunta que eu quero conversar com você hoje.

O que é o burnout — e o que ele não é

O burnout, oficialmente reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na CID-11 como fenômeno ocupacional com código QD85, é caracterizado por três dimensões: exaustão física e emocional, afastamento mental do trabalho e sensação de ineficácia profissional. Desde janeiro de 2025, o Brasil passou a adotar essa classificação como doença ocupacional — um reconhecimento importante para quem sofre com ela.

Os números são expressivos. Segundo dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), cerca de 30% das pessoas em atividade no Brasil apresentam sintomas da síndrome. O país ocupa a segunda posição no ranking mundial de casos. Uma pesquisa da Stress Management Association aponta que o fenômeno afeta cerca de 32% dos brasileiros.

Mas o burnout não é fraqueza. Não é frescura. E — aqui está o ponto central deste artigo — ele não começa no trabalho.

O trabalho é, na maioria das vezes, o lugar onde o esgotamento aparece. Mas a história que o tornou possível é mais longa, mais pessoal, e começa muito antes da primeira reunião de segunda-feira.

A ponta do iceberg: o trabalho como gatilho, não como causa

Quando um paciente chega até mim em estado de esgotamento, a primeira coisa que percebo é que o trabalho costuma ser apenas o último capítulo de uma história que vinha sendo escrita há muito tempo.

Tem a pessoa que nunca consegue dizer não, que se sobrecarrega porque aprendeu muito cedo que ser útil era a única forma de ser amada. Tem quem trabalha 14 horas por dia para provar para si mesmo que é suficiente — um sentimento que não nasceu no escritório. Tem quem carrega uma ansiedade crônica que nenhuma férias consegue resolver, porque essa ansiedade não veio das planilhas.

A perspectiva psicossomática — que estuda a relação entre o estado emocional e as manifestações físicas — há muito reconhece que o burnout não se explica apenas pelas condições laborais. Ele nasce da interação entre o ambiente externo e a história interna de cada pessoa: seus padrões emocionais, suas estratégias de enfrentamento, seus vínculos mais antigos.

O iceberg é uma imagem fiel. Vemos a ponta — o esgotamento, a insônia, a irritabilidade, a queda de rendimento. Mas a maior parte da estrutura está submersa, invisível: as feridas que nunca cicatrizaram, os papéis que nunca foram questionados, as lealdades que nunca foram nomeadas.

A história que precede o esgotamento

Traumas vividos na infância e na adolescência deixam marcas que se expressam na vida adulta de formas que nem sempre reconhecemos como consequência direta do passado. A literatura científica nessa área é extensa: estudos mostram que experiências adversas nos primeiros anos de vida — como negligência emocional, ausência de vínculos seguros, exigências de desempenho excessivas ou instabilidade familiar — se associam a dificuldades emocionais na vida adulta, incluindo ansiedade, depressão e esgotamento crônico.

O padrão de apego — a forma como aprendemos, ainda bebês, a nos relacionar com as pessoas que nos cuidam — está associado, segundo estudos na área, à forma como desenvolvemos nossa capacidade de autorregulação diante do estresse ao longo da vida. Quando esse apego foi inseguro ou inconsistente, é comum que o sistema nervoso permaneça mais alerta diante de situações desafiadoras. E um sistema nervoso que vive em alerta constante é um sistema que, mais cedo ou mais tarde, se esgota.

Não é uma condenação. É uma compreensão. E compreender é o primeiro passo para cuidar.

Neurotransmissores fora de sintonia — e o motivo disso importa

A psiquiatria faz um trabalho absolutamente necessário. Quando penso em um psiquiatra, penso em alguém que, com precisão e conhecimento, trabalha como um DJ da química cerebral — regulando dopamina, serotonina, noradrenalina, os neurotransmissores que governam nosso humor, nossa energia, nossa capacidade de sentir prazer e motivação.

No burnout, esses sistemas realmente se alteram. A dopamina, que nos move em direção às coisas que importam, cai. A serotonina, que nos dá senso de bem-estar, oscila. A noradrenalina, ligada ao estado de alerta e resposta ao estresse, pode ficar cronicamente elevada e depois colapsar.

Mas aqui está a pergunta que eu não consigo deixar de fazer: o que fez essa orquestra interna perder a harmonia — e como ajudá-la a encontrar seu próprio ritmo de volta?

A resposta está na história de cada pessoa. Quando o sistema interno fica desorganizado — pelo estresse acumulado, pelo trauma não integrado, pelos conflitos emocionais que ficaram sem resolução — pode ser necessário, como primeira instância, um regente de fora. Mas o que buscamos é autonomia. Pois tratar apenas a química, sem olhar para o que a desorganizou, pode trazer um alívio real e importante — e traz, sim. Mas o risco de recaída permanece, porque a nascente continua lá, intocada.

Por isso defendo que o tratamento medicamentoso e o cuidado das camadas mais profundas não se excluem. Eles se completam.

O olhar sistêmico: quando o cansaço tem sobrenome

Existe uma dimensão do esgotamento que a medicina convencional raramente alcança: a dimensão transgeracional.

Nas Constelações Familiares, abordagem sistêmica que integro à minha prática clínica, parte-se do princípio de que carregamos, por amor e lealdade, dinâmicas e emoções do nosso sistema familiar — às vezes de gerações que não chegamos nem a conhecer. Padrões de repetição, sacrifícios silenciosos, lealdades invisíveis que moldam nossos comportamentos sem que tenhamos consciência disso.

Vale dizer com clareza: as Constelações Familiares operam em um campo que a ciência convencional ainda não consegue medir completamente. Não existem ensaios clínicos controlados em número suficiente para afirmar sua eficácia de forma conclusiva. O que existe é uma tradição clínica consistente, uma fenomenologia rica, e relatos significativos de pessoas que, ao olharem para a sua história familiar, encontraram um fio que explicava muito do que viviam no presente.

Na minha prática, o que vejo com frequência é isto: pessoas que chegam exaustas carregando não apenas o próprio cansaço, mas o peso de histórias que não são só suas. Uma avó que se sacrificou em silêncio pela família. Um pai que nunca pôde mostrar vulnerabilidade. Uma mãe que aprendeu que descansar era luxo que ela não podia ter. E uma neta, uma filha, que repete esses padrões sem saber por quê — até que alguém ajuda a iluminar essa teia.

Como a homeopatia entra nessa conversa

A homeopatia, sistema terapêutico baseado no princípio da individualização e da semelhança, é, na minha visão, uma das ferramentas mais delicadas e potentes para acompanhar estados de esgotamento profundo — justamente porque não olha para o rótulo, mas para a pessoa.

Em um atendimento homeopático, não pergunto apenas “quais são seus sintomas?” Pergunto como você dorme, como você sente o cansaço, o que o alivia e o que o piora, como você era antes de adoecer, o que a vida foi pedindo de você ao longo do tempo. O remédio homeopático prescrito é escolhido para aquela pessoa específica — não para o burnout em geral.

A evidência científica sobre homeopatia segue sendo um campo de debate. Uma revisão sistemática publicada no Systematic Reviews (2014) analisou ensaios clínicos randomizados com homeopatia individualizada e encontrou sinais de efeito específico — pequenos, mas consistentes — em comparação ao placebo, embora os autores ressaltem que a qualidade dos estudos disponíveis ainda exige cautela na interpretação. Apresento isso com transparência: a pesquisa está em curso, e não trabalho com promessas de resultado.

O que posso dizer, com anos de prática dedicada à homeopatia e ao cuidado individualizado, é que essa medicina me permite acompanhar meus pacientes de um lugar que a prescrição isolada de sintomas não alcança. Ela me permite olhar para o todo — para a pessoa que adoeceu, não apenas para a doença que ela apresenta.

Psiquiatria, psicologia e medicina integrativa: juntas, não em oposição

Não existe conflito entre o que faço e o que um psiquiatra ou psicólogo fazem.

Se você está em acompanhamento psiquiátrico, continue. Se está em psicoterapia, continue. Essas são ferramentas fundamentais, especialmente quando o esgotamento chegou a um ponto em que o funcionamento diário está comprometido.

O que proponho é um olhar complementar — uma camada a mais de cuidado que não substitui, mas aprofunda. A psiquiatria pode regular a química. A psicologia pode oferecer ferramentas para mudar padrões de pensamento e comportamento. E a medicina integrativa, com a homeopatia e o olhar sistêmico, pode ajudar a tocar a nascente — o lugar onde tudo isso começou.

Um DJ incrível pode, sim, ajustar de fora o que está tocando mal por dentro. E é exatamente isso que o psiquiatra faz — com técnica, com precisão, com cuidado. Mas o objetivo mais fundo não é depender eternamente do ajuste externo. É ir, aos poucos, aprendendo a cantar a sua própria música — de forma mais melodiosa, mais sua. E para isso, é preciso ir à nascente: entender o que fez essa música soar tão desafinada desde o começo.

Reconhece essa história no seu próprio cansaço?

Conversar com a Dra. Gissele

Quando buscar ajuda

Se você se reconhece em alguma dessas situações, pode ser hora de buscar um olhar mais profundo:

  • O cansaço não passa com descanso — você dorme e acorda exausta do mesmo jeito
  • Você sente que está “apagando” emocionalmente, como se tivesse perdido a capacidade de se alegrar ou se importar
  • Percebe que repete padrões que não entende — relações parecidas, situações parecidas, sempre o mesmo resultado
  • Tem uma sensação vaga de que algo mais fundo está errado, mesmo sem conseguir nomear o quê
  • Sente que carrega um peso que não é só seu

Esses podem ser sinais de que o esgotamento tem raízes que merecem atenção — e cuidado.

O esgotamento não surgiu do nada. Ele é um continuum — uma linha que conecta quem você foi, o que você viveu, o que aprendeu a ser, até o momento em que o corpo disse “chega.” E quando olhamos para essa linha juntas, algo começa a se mover. Não por milagre. Mas porque compreender é, em si, um ato de cuidado.

Se você se identificou com o que leu aqui, estou disponível para  uma consulta – por teleconsulta, de onde você estiver, ou presencialmente em Jacareí (SP).

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica individualizada.

Fontes consultadas

  1. OMS / CID-11 — Burnout como fenômeno ocupacional (código QD85)
  2. Fiocruz — Burnout passa a integrar CID-11 no Brasil (jan/2025)
  3. SciELO — Repercussões do trauma na infância na psicopatologia da vida adulta
  4. Gil-LaOrden et al. (2024) — Sentimentos de culpa, burnout e problemas psicossomáticos (Behavioral Sciences)
  5. Mathie et al. (2014) — Revisão sistemática sobre homeopatia individualizada (Systematic Reviews)
  6. Figueiredo et al. (2013) — Trauma infantil e sua associação com transtornos do humor na vida adulta (Psicologia em Revista)
  7. BVS / Pepsic — Constelações Familiares e padrões transgeracionais
  8. SciELO Brasil — Revisitando alguns conceitos da teoria do apego (Psicologia: Teoria e Pesquisa)