Quantas vezes você já viu esse ciclo? A friagem chega, a coriza começa a escorrer. A coriza vira chiado. O chiado vira nebulização, corticoide, às vezes antibiótico. Em alguns dias, melhora. Você respira. Uma, duas semanas depois, a cena se repete.
Se você é mãe ou pai de uma criança que vive esse ciclo, você já deve ter se perguntado: por que o meu filho reage assim a qualquer mudança de temperatura, enquanto outras crianças da mesma creche ficam bem?
Essa pergunta, simples e legítima, é a que me move na prática clínica. E a resposta que encontrei — e que a homeopatia me ofereceu — é: porque o problema não está no frio. Está no terreno.
O que é bronquite de repetição em crianças?
A bronquite é uma inflamação dos brônquios — os canais que levam o ar até os pulmões. Quando ela se repete mais de quatro vezes por ano, os médicos a chamam de bronquite recorrente ou de repetição.
Os sinais são bem conhecidos por quem vive isso em casa: tosse com chiado, falta de ar, às vezes febre, secreção e aquele aperto no peito que assusta. É uma situação real, que precisa de cuidado. Mas precisamos ir além do episódio agudo e perguntar: por que essa criança, com toda a sua história, responde assim — enquanto outras ao seu redor não respondem?
Quando o ambiente não é o culpado
Observe a cena da creche por um momento.
Vinte crianças. O mesmo espaço fechado, o mesmo ar, os mesmos vírus circulando. Uma mudança de temperatura chega. Algumas crianças ficam com coriza por dois dias e passam bem. Outras desenvolvem chiado e bronquite. E algumas não adoecem nem isso.
O que diferencia essas crianças? Não é só o vírus. O vírus estava ali para todas.
Do ponto de vista científico, sabemos que a suscetibilidade individual às infecções respiratórias depende de muitos fatores — histórico familiar, maturidade do sistema imunológico, genética, amamentação, microbiota, entre outros. E, na homeopatia, há uma camada que se soma a tudo isso e que raramente é considerada na consulta convencional: o estado interno da criança — sua história, suas vivências, suas relações, suas reações ao mundo. O solo vivo no qual esse organismo está enraizado.
Quando o organismo está em equilíbrio — bem dormido, bem alimentado, seguro emocionalmente, com suas defesas afinadas — ele encontra e combate o vírus sem precisar adoecer de forma intensa. Quando esse equilíbrio está comprometido, qualquer agente externo encontra um caminho facilitado para instalar-se.
A medicina convencional sabe que a bronquite de repetição não é simplesmente uma infecção: é uma resposta exagerada dos brônquios, e por isso recorre ao corticoide para conter essa inflamação. Esse cuidado tem seu lugar e sua importância. O que a homeopatia e a escuta psicossomática trazem de diferente é um passo anterior: por que esses brônquios estão reagindo de forma tão intensa e tão repetida? O olhar se desloca do episódio para a criança que tem o brônquio — para cuidar dela de uma forma que aquela inflamação não precise mais se manifestar.
O terreno emocional da criança: o que o corpo está expressando?
Aqui chegamos a uma parte do olhar que geralmente não é vista — e que, na minha prática, muda tudo.
Quando a criança adoece repetidamente com bronquite — e sempre da mesma forma, sempre no peito, sempre com chiado — o corpo está comunicando algo. A pergunta que me faço é: o que está represado nesse organismo que precisa sair como inflamação brônquica?
A ciência já demonstra que crianças com ansiedade, especialmente a chamada ansiedade de separação — muito comum em bebês e pré-escolares que passam boa parte do dia longe dos pais, na creche — podem apresentar sintomas físicos como expressão do sofrimento emocional. Dores de cabeça, dores de barriga, alterações de sono, irritabilidade. O corpo fala o que a criança ainda não tem palavras para dizer.
Na perspectiva que eu trabalho — que inclui a homeopatia e a escuta psicossomática — vejo com frequência que o corpo da criança com bronquite de repetição está expressando algo que ainda não encontrou outra forma de se manifestar. Algo que pode ter a ver com o momento de vida que ela atravessa, com as relações que a cercam, com os desafios que ainda não têm nome nem palavras.
Mas não estou falando apenas de crianças visivelmente ansiosas ou tímidas. Crianças aparentemente independentes e confiantes também sentem. Entrar na creche, na escolinha, conviver com outras crianças, aprender a dividir, a esperar, a ser avaliada — são desafios reais. Podem parecer pequenos aos olhos dos adultos, mas para a criança que os vive, são enormes. E é possível que seja justamente esse desafio — sentido, processado, acumulado — que o brônquio esteja expressando.
Isso não significa culpar a criança, nem os pais. Significa ampliar o olhar sobre o que está adoecendo. Não apenas os brônquios, mas o ser inteiro que está usando a via respiratória para expressar algo que ainda não foi visto.
O papel do corticoide: um aliado importante, mas com limites
Quero trazer essa conversa com cuidado, porque ela merece.
O corticoide — especialmente o inalatório — é um recurso medicamentoso importante. Em crianças com asma persistente, as sociedades médicas brasileiras reconhecem os corticoides inalatórios como primeira escolha para controle das crises, e seus benefícios, quando bem indicados, superam os riscos.
O que a literatura também aponta é que o uso prolongado e repetido de corticoides — especialmente os orais — não é isento de efeitos sobre o organismo em desenvolvimento. Revisões científicas registram preocupações como desaceleração do crescimento, impacto sobre o metabolismo do cálcio e a formação óssea, e candidíase oral em crianças usando corticoide inalatório em altas doses por tempo prolongado.
O corticoide age sobre o episódio. A homeopatia age sobre o terreno. São momentos distintos de cuidado, e não precisam ser opostos.
O que observo na prática é que, quando o terreno não muda, o episódio se repete. A família cuida da crise com os recursos que tem à pronta disposição. O que a abordagem integrativa traz de diferente é uma pergunta que atua em paralelo: o que está tornando esse organismo tão suscetível a reagir assim, e sempre da mesma forma?
Essa pergunta não substitui o acompanhamento que a criança já tem. Ela se soma a ele — com o objetivo de que, ao longo do tempo, as crises precisem cada vez menos de intervenção aguda.
Como a homeopatia olha para esse quadro
A homeopatia parte de um princípio que, na minha prática, se comprova cotidianamente: o remédio é para a pessoa, não para a doença.
Isso significa que duas crianças com bronquite recorrente podem receber medicamentos diferentes — porque são constituições diferentes, vivem desafios diferentes, têm histórias diferentes. Um medicamento homeopático bem escolhido não trata apenas a inflamação dos brônquios — ele também mobiliza o organismo inteiro para que aquela inflamação não precise mais se manifestar.
Existem estudos clínicos publicados em periódicos científicos que investigam o uso da homeopatia em crianças com infecções respiratórias recorrentes — avaliando redução na frequência dos episódios ao longo do tempo, e não apenas a melhora imediata. Vale notar que esses estudos testam modalidades e produtos específicos, que podem diferir da abordagem constitucional e individualizada que pratico. As evidências nessa área são ainda preliminares e seguem em investigação. O que ofereço é, portanto, uma perspectiva clínica informada por essa literatura e aprofundada pela prática — não uma promessa baseada em resultados definitivos.
Na consulta, eu observo não só os sintomas físicos, mas a criança inteira: como ela dorme, como reage a situações novas, se é mais tímida ou expansiva, como lida com a separação dos pais, se apresenta mudanças de humor antes de adoecer. Cada detalhe compõe o quadro que guia a prescrição.
O que esperar de um processo de fortalecimento do terreno
Algo que faz muita diferença para as famílias que acompanho é saber o que esperar — sem expectativas equivocadas.
O que observo clinicamente ao longo do processo homeopático é uma mudança gradual no padrão de adoecimento. As crises vão ficando mais espaçadas. Depois, menos intensas. A criança que antes ia direto do resfriado para a bronquite, agora fica com coriza por alguns dias e passa. Depois, num resfriado seguinte, nem isso. O corpo vai aprendendo — ou melhor, vai sendo fortalecido — para responder de outra forma.
Esse processo leva tempo. Não são duas semanas. Depende da profundidade do desequilíbrio, do histórico de vida da criança, do momento emocional da família. Acompanho famílias por meses — com consultas periódicas, ajustes no medicamento, escuta das mudanças.
E nesse caminho, algo acontece que muitas famílias não esperavam: a criança melhora por inteiro. Não só a bronquite. O sono fica mais tranquilo. O apetite volta. O ganho de peso se estabiliza. O humor muda — ela fica mais leve, mais presente. O comportamento se transforma. Porque a bronquite era apenas a parte visível de um todo que estava pedindo cuidado. À medida que o terreno se fortalece, o ser inteiro responde.
Reconhece esse ciclo no seu filho ou filha?
Quando buscar ajuda e como posso te acompanhar
Se a sua criança:
- faz bronquite a cada resfriado, de forma sistemática
- já passou por muitos ciclos de corticoide e antibiótico neste ano, sem que o padrão mude
- parece ansiosa, com dificuldade de separação, muito sensível a mudanças
- é uma criança que “pega tudo” enquanto outras crianças ao redor ficam bem
…talvez seja o momento de buscar um olhar diferente. Não para substituir o acompanhamento que ela já tem, mas para somar — e para perguntar o que ainda não foi perguntado.
Atendo por teleconsulta em todo o Brasil, com especial atenção para famílias de São Paulo Capital, do Vale do Paraíba e região — e presencialmente em Jacareí (SP). A consulta é espaço para ouvir a criança, ouvir a família, e compor junto um cuidado que faça sentido para aquele ser único que está diante de nós.
Este artigo é de caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica, o diagnóstico ou o tratamento individualizado. Cada criança é única e merece uma avaliação clínica própria.
Fontes consultadas
- SciELO / Jornal de Pediatria (SBP) — Corticoide oral e inalatório para tratamento de sibilância no primeiro ano de vida
- BVS Atenção Primária em Saúde — Qual a segurança no uso de corticoides inalatórios na pediatria?
- Revista Eletrônica Acervo Saúde — Consequências do uso prolongado de corticosteroides inalatórios em crianças com asma
- SciELO / Jornal de Pediatria (SBP) — Patógenos respiratórios frequentes em infecções do trato respiratório em crianças de creche
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Como abordar a criança com infecção respiratória de repetição
- SciELO — Creches e doenças transmissíveis (suscetibilidade individual)
- Jong MC et al. (2016) — Effectiveness, safety and tolerability of a complex homeopathic medicinal product in the prevention of recurrent acute URTIs in children
- Manual MSD — Transtorno de ansiedade de separação em crianças
