Existe uma pergunta que costumo ouvir no consultório — às vezes dita em voz alta, às vezes apenas insinuada no olhar de quem entra pela primeira vez: “Mas a homeopatia realmente funciona? E o que ela é, afinal?”
É uma pergunta que merece ser acolhida com cuidado — e respondida com profundidade. Porque a homeopatia tem história. Tem raízes. E tem, sobretudo, uma forma de ver o ser humano que, com mais de dois séculos de existência, continua sendo profundamente atual.
Neste artigo, convido você a conhecer um pouco dessa trajetória: de onde veio, como chegou até nós no Brasil, o que a fundamenta como especialidade médica reconhecida e por que ela segue sendo, para mim e para tantos médicos, uma medicina de escuta e de cuidado com a pessoa inteira.
Um médico insatisfeito e uma descoberta acidental
Samuel Hahnemann nasceu em 10 de abril de 1755, em Meissen, no leste da Alemanha. Era filho de um pintor de porcelanas, cresceu num lar simples e se tornou médico quase por teimosia — estudando em parte por bolsas e por tradução de textos científicos, trabalho que dominou com precisão impressionante em vários idiomas.
Hahnemann era um bom médico. Mas estava profundamente incomodado com o que via ao seu redor: práticas como sangria, purgas violentas e administração de substâncias em doses altíssimas — métodos que muitas vezes faziam mais mal do que bem ao paciente já fragilizado. Em determinado momento, chegou a abandonar a prática clínica por não conseguir exercê-la com a consciência que achava necessária.
Foi durante um trabalho de tradução, em 1790, que aconteceu o que mudaria sua vida — e, de certa forma, a história da medicina. Traduzindo um tratado do médico escocês William Cullen, Hahnemann se deparou com a explicação de que a quinina — extraída da casca da quina, usada para tratar a malária — funcionava por ser um tônico amargo para o estômago.
A explicação não o convenceu. Curioso, ele tomou doses regulares de quinina em si mesmo — e desenvolveu sintomas muito semelhantes aos da malária: febre intermitente, calafrios, sudorese.
A observação foi simples, mas a conclusão foi revolucionária: uma substância que causa sintomas semelhantes aos de uma doença em uma pessoa sã poderia, em doses adequadas, auxiliar no cuidado de quem sofre com essa mesma doença.
Similia similibus curentur. Semelhante cuida de semelhante.
O princípio que ficou: semelhante cuida de semelhante
Vale dizer que a ideia de Hahnemann não surgiu do nada. Hipócrates, o chamado pai da medicina, já havia mencionado no século V a.C. que uma doença poderia ser tratada com aquilo que produz sintomas semelhantes. No século XVI, o suíço Paracelso defendia que venenos administrados em pequenas doses podiam auxiliar em determinadas enfermidades. Povos como os maias, os gregos, os chineses e os indígenas norte-americanos também trabalhavam com princípios próximos ao que chamamos de similitude.
O que Hahnemann fez foi outra coisa: ele transformou essa intuição milenar em um sistema terapêutico. Metodizou. Registrou. Testou — não apenas em si mesmo, mas com discípulos voluntários, em experimentos que chamou de patogenesias, nos quais substâncias eram administradas em pessoas sãs para mapear os sintomas que provocavam. E publicou.
Vale um parêntese que acho bonito. Nessa mesma época, o médico inglês Edward Jenner observava algo curioso: as ordenhadoras que trabalhavam com vacas raramente contraíam varíola. Depois de contrair a varíola bovina — uma doença semelhante, mas muito mais branda —, elas pareciam protegidas da variante humana, muito mais grave. Jenner, também movido pela observação cuidadosa, testou essa hipótese empiricamente e desenvolveu, em 1796, o que seria a primeira vacina da história.
Dois médicos, no mesmo ano, seguindo caminhos distintos a partir de uma mesma intuição: o semelhante pode proteger, pode cuidar, pode transformar. Hahnemann e Jenner nunca dialogaram sobre isso — mas há algo de significativo nessa convergência, nesse espírito da época que apostava na observação atenta do que a natureza já mostrava.
Uma ressalva importante, que os homeopatas de formação certamente apreciarão: o “semelhante” da homeopatia não é o mesmo agente causador da doença, como ocorre na lógica vacinal moderna. Na homeopatia, o que se busca é uma substância capaz de produzir, em um indivíduo saudável, sintomas semelhantes aos do doente — e não a doença em si. São princípios que guardam uma bela ressonância poética, mas operam em referenciais distintos.
Em 1796, Hahnemann publicou o ensaio “Um novo método para averiguar os princípios curativos das drogas”. Em 1810, veio o Organon da Arte de Curar — o grande texto fundador da homeopatia, que recebeu diversas edições e foi difundido por toda a Europa e América do Norte.
O termo homeopatia foi cunhado pelo próprio Hahnemann, a partir do grego: homoios (semelhante) e pathos (sofrimento). Em oposição, chamou de alopatia a medicina que atua pelo princípio contrário — contraria contrariis curantur —, termo que usamos até hoje.
O que Hahnemann trouxe de novo
Além da lei dos semelhantes, Hahnemann desenvolveu outros elementos que compõem a prática homeopática — entre eles, dois merecem destaque aqui:
A dinamização — o processo de diluição com sucussão (agitação ritmada) ao qual os medicamentos são submetidos. Hahnemann observou que, ao diluir as substâncias e agitá-las de modo específico, obtinha uma resposta terapêutica que não apenas persistia, como se aprofundava — mesmo com doses progressivamente menores.
A experimentação em indivíduos sadios — o método rigoroso de testar cada substância em pessoas saudáveis antes de utilizá-la clinicamente, observando e registrando os sintomas produzidos. Esse conjunto de registros compõe a Matéria Médica Homeopática, que hoje conta com cerca de três mil substâncias catalogadas — das mais variadas origens: mineral, vegetal e animal.
E havia algo mais: desde o início, a consulta homeopática era longa. Profunda. Hahnemann prescrevia ao médico uma escuta atenta a tudo que o paciente trazia — não apenas os sintomas físicos, mas seus medos, seus padrões de reação ao calor e ao frio, à solidão e ao barulho, às perdas e às alegrias. O medicamento que o médico indicaria precisava corresponder não a um diagnóstico genérico, mas à pessoa singular em seu adoecimento.
Em homeopatia, não há doenças — há doentes.
Esse aforismo não é apenas uma frase bonita: é a condição fundamental de toda a prática homeopática. Ele diz que o diagnóstico da doença, por si só, não é suficiente para guiar o tratamento — o que importa é conhecer a pessoa que adoece, com sua história singular, suas reações particulares, seu modo próprio de sofrer. Sem essa individualização, não há homeopatia. É o ponto de partida inegociável de cada consulta que faço.
A homeopatia chega ao Brasil — e toma raízes
A data que o Brasil escolheu para comemorar o Dia Nacional da Homeopatia — 21 de novembro — é também a data em que, em 1840, desembarcou no Rio de Janeiro o médico francês Benoît Jules Mure.
Mure tinha 31 anos, havia se recuperado de uma tuberculose pulmonar por meio do tratamento homeopático e estava repleto de projetos. Era discípulo direto de Hahnemann. Veio ao Brasil com outros propósitos inicialmente — tentou fundar uma colônia cooperativa em Santa Catarina —, mas depois voltou ao Rio de Janeiro e se dedicou de forma intensa ao ensino e à difusão da homeopatia no país.
Chegou a dispor de sua própria fortuna para difundir a medicina, direcionando o tratamento para escravos e pessoas marginalizadas pela sociedade. Em 1844, fundou a Escola de Homeopatia do Rio de Janeiro, embrião do que se tornaria, em 1859, o Instituto Hahnemanniano do Brasil — sociedade científica que existe até hoje, e cuja escola de medicina daria origem ao que hoje é a Escola de Medicina e Cirurgia da UNIRIO.
A homeopatia cresceu com raízes aqui. No final do século XIX, foi abraçada pelo movimento positivista brasileiro — o que lhe rendeu apoio institucional e até enfermarias em hospitais militares. Em 1918, o ensino homeopático foi oficializado por decreto. Em 1926, aconteceu o Primeiro Congresso Brasileiro de Homeopatia, no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, a Associação Paulista de Homeopatia (APH), onde tenho a honra de coordenar o NEAH — Núcleo Avançado de Estudos em Homeopatia —, foi fundada em 5 de junho de 1936.
Uma especialidade médica reconhecida
Em 4 de julho de 1980, pela Resolução CFM nº 1.000, o Conselho Federal de Medicina reconheceu a homeopatia como especialidade médica no Brasil. Em 1990, esse reconhecimento foi reafirmado pela Associação Médica Brasileira (AMB).
Em comunicado oficial publicado em 2023, o CFM esclareceu que “a homeopatia é uma das especialidades reconhecidas no país, sendo praticada com rigor e ética por médicos habilitados, após conclusão em Residência Médica e/ou aprovação em prova de títulos organizada com o apoio da Associação Médica Brasileira.” O conselho informou também que não havia qualquer processo em andamento visando questionar esse reconhecimento.
Isso importa porque significa que, no Brasil, a homeopatia é praticada por médicos — com formação clínica completa, registro no Conselho Regional de Medicina e especialização específica na área. Não é uma prática paralela à medicina: é uma de suas especialidades.
A minha trajetória segue esse caminho: sou médica, especialista em Dermatologia e em Homeopatia. A minha escuta homeopática não substitui o conhecimento clínico — ela o aprofunda.
O que distingue a consulta homeopática
Quando alguém chega ao consultório homeopático, algo diferente acontece desde os primeiros minutos.
A consulta não começa pela queixa principal e não termina nela. Ela se abre para um campo mais amplo — e isso não é uma preferência pessoal minha; é a própria natureza da homeopatia, que exige, desde Hahnemann, uma anamnese que busca conhecer a pessoa em sua totalidade.
Como descreve um artigo publicado na Ciência & Saúde Coletiva (SciELO), a homeopatia, ao fundamentar seu sistema diagnóstico e terapêutico na individualização do adoecimento, “necessita de uma anamnese mais profunda que busca aproximar-se do paciente com o intuito de conhecer as manifestações da doença através das diferentes modalidades de sintomas que expressam, em última instância, a forma particular de ser daquele paciente.”
Na prática, isso significa perguntar sobre o sono, o apetite, como a pessoa reage ao frio, ao calor, à pressão, à solidão. Sobre os eventos que marcaram a sua história. Sobre o que dói e o que cansa — no sentido físico e no sentido figurado.
Esse tempo de escuta não é protocolo. É, como gosto de dizer, a matéria-prima do cuidado.
Sobre as evidências
O campo da pesquisa em homeopatia é vivo e, em alguns pontos, ainda em construção — como ocorre em tantas áreas da medicina. Parte dos estudos clínicos sugere resultados favoráveis para determinadas condições; outros não encontram diferença significativa em relação ao placebo, especialmente quando não respeitam o princípio da individualização medicamentosa. Esse debate existe, e é legítimo.
Vale dizer que a homeopatia opera a partir de uma lógica própria — que inclui, necessariamente, a escuta individualizada de cada pessoa. Ensaios que testam um único medicamento para grupos inteiros de pacientes com o mesmo diagnóstico, sem essa individualização, não estão, rigorosamente, testando a homeopatia como ela é praticada. É uma distinção importante para quem quer compreender o que a pesquisa nessa área diz — e o que ainda falta perguntar.
Na minha prática, a homeopatia é sempre parte de um cuidado integrado — complementar ao que a medicina convencional oferece, nunca em oposição a ela. Nenhuma abordagem que eu utilize substitui um diagnóstico que precisa ser feito, um exame que precisa ser pedido, ou um tratamento que precisa ser mantido.
Quando procurar um médico homeopata
A homeopatia pode ser uma abordagem valiosa em muitos contextos — especialmente em quadros crônicos que se repetem, em pessoas que buscam uma escuta mais aprofundada do processo de adoecimento, ou em situações onde o cuidado convencional precisa de um olhar adicional sobre a pessoa como um todo.
Se você mora em São Paulo Capital ou em qualquer lugar do Brasil, pode me encontrar por teleconsulta — sem precisar se deslocar. Para quem está em Jacareí, no Vale do Paraíba ou na região de São José dos Campos, atendo também de forma presencial em Jacareí.
O primeiro passo é simples: uma mensagem pelo WhatsApp, contando brevemente o que você busca.
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Nenhuma informação aqui substitui uma consulta médica individualizada. Cada pessoa é única — e o cuidado também precisa ser.
Fontes consultadas
- História da Homeopatia (AMHB)
- 1755 – Nasce Hahnemann, médico criador da homeopatia (Fiocruz / Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos)
- A Homeopatia no Brasil (APH)
- A verdadeira história da Homeopatia no Brasil (AMHB)
- Homeopatia é reconhecida pelo CFM — comunicado 2023 (AMHB)
- 21/11 – Dia Nacional da Homeopatia (Biblioteca Virtual em Saúde / Ministério da Saúde)
- Homeopatia no Sistema Único de Saúde: representações dos usuários sobre o tratamento homeopático (MONTEIRO, D. A.; IRIART, J. A. B. — Cad. Saúde Pública, SciELO)
- Homeopatia: uma abordagem do sujeito no processo de adoecimento (Ciência & Saúde Coletiva, SciELO)
- Evidências científicas em homeopatia (TEIXEIRA, M. Z. — História, Ciências, Saúde – Manguinhos, SciELO/Redalyc)
- A presença da homeopatia nas faculdades de medicina brasileiras (SALLES, S. A. C. — Revista Brasileira de Educação Médica, SciELO)
- CFM esclarece situação da homeopatia como especialidade médica (2023) (Portal CFM)
- Homeopatia: revisão de pressupostos e evidências (TEIXEIRA, M. Z. et al. — BVS Saúde)
- Dossiê Especial: Evidências Científicas em Homeopatia (Câmara Técnica de Homeopatia do CREMESP)
- “Homeopatia não é efeito placebo”: comprovação das evidências científicas da homeopatia (TEIXEIRA, M. Z. — USP)
