Quando o médico segue um protocolo, ele está tratando a doença ou a pessoa? Essa pergunta, aparentemente simples, abre um dos debates mais ricos da medicina contemporânea.

Nesse episódio, conversei com o Dr. Lucas Franco Pacheco — médico homeopata, professor e coordenador de pós-graduação em Homeopatia pela Plenitude Educação, palestrante e referência no Brasil e no exterior sobre terapia detox e Viscum album. A conversa foi sobre isso: sobre os limites do olhar mecanicista, sobre o que a homeopatia e a medicina integrativa trazem de diferente — e sobre uma planta que, de forma muito peculiar, habita os dois mundos ao mesmo tempo.

Dois eixos que percorrem a história da medicina

O Dr. Lucas abriu a conversa com uma imagem que me pareceu muito precisa: a história da medicina corre por dois eixos paralelos, que nunca se fundiram completamente.

Um desses eixos é vitalista e holístico — e remonta a Hipócrates, considerado o pai da medicina. Para essa tradição, a pessoa é indivisível. Há uma força vital que organiza o organismo como um todo, e é ela que precisa ser compreendida e estimulada.

O outro eixo é o da medicina mecanicista, que ganha forma na escola de Galeno (século II d.C.) e se consolida com a revolução científica moderna. Aqui, o foco é a doença localizada: o órgão afetado, o sintoma específico, o remédio que age contrariamente àquele sintoma.

Essa segunda vertente trouxe avanços extraordinários. O diagnóstico preciso, os exames laboratoriais, a farmacologia moderna — tudo isso nasceu de um esforço legítimo de compreender o corpo em detalhe. E esse esforço salvou e salva milhões de vidas.

O problema, como o Dr. Lucas colocou, não está no conhecimento em si. Está quando o recorte se torna tão fino que o médico especialista no joelho não enxerga mais a pessoa que caminha com esse joelho.

O que a medicina convencional faz muito bem — e onde ela pede complemento

A medicina convencional é extraordinária no diagnóstico. Ela agrupa pessoas com a mesma condição orgânica, observa como evoluem ao longo do tempo, identifica quais tratamentos as beneficiam — e constrói protocolos a partir disso. Esse processo é sério, rigoroso, e não deve ser desconsiderado.

Mas há algo que ela ainda está aprendendo a fazer: olhar para a pessoa além do diagnóstico.

Dentro da própria medicina convencional, há movimentos nessa direção — como a medicina de família e o método clínico centrado na pessoa, que reconhecem que um protocolo excelente ainda precisa ser bom para aquela pessoa específica, com sua história de vida, seu contexto socioeconômico, seu ambiente.

Na homeopatia, esse passo é estrutural. Não é um adendo. Quando alguém chega a uma consulta homeopática com hipertensão ou diabetes, esses dados importam — mas a conversa vai muito além deles. Importa como a pessoa dorme, o que deseja comer, se sente mais frio ou calor, como reage à pressão, o que viveu, o que ainda carrega.

Essa totalidade sintomática é a base da prescrição. Na homeopatia, o diagnóstico é o ponto de partida — não o destino. O que orienta a prescrição é a forma única como aquela pessoa vive, sente e adoece.

Como bem disse uma ex-presidente da Organização Mundial da Saúde: uma medicina não precisa excluir a outra. Elas se complementam. Uma preenche as lacunas da outra.

Protocolo não precisa ser prisão

O protocolo não existe para engessar a prática médica. Existe para dar ao médico uma referência sólida a partir da qual ele pode pensar.

Dentro do protocolo, cabe raciocinar. Cabe perguntar: isso se aplica a essa pessoa, agora, da forma como está prescrito? O que nela pede ajuste?

Há situações em que o diagnóstico assusta mais do que a doença em si. Em que uma pessoa recebe um nome — um laudo, um número, um estágio — e isso já basta para gerar sofrimento e pressionar por tratamentos que talvez não sejam os mais adequados para aquele momento ou aquele indivíduo. A medicina que pensa, como o Dr. Lucas chamou, é a que consegue colocar o protocolo a serviço da pessoa — e não o contrário.

Essa distinção entre doença (o diagnóstico, o dado objetivo) e enfermidade (a experiência subjetiva do adoecimento, o quanto aquilo está de fato limitando a vida) foi um dos pontos mais ricos do episódio. São coisas diferentes. E o cuidado precisa responder a ambas.

Viscum album: a planta que une três racionalidades médicas

Foi nesse pano de fundo — protocolo versus individualidade — que o Viscum album entrou na conversa.

Viscum album é o nome científico do visco, uma planta semiparasita conhecida há milênios. Seu uso medicinal remonta a mais de 2.600 anos: os druidas celtas, que eram os médicos de seu povo, a consideravam sagrada e tinham rituais específicos para coletá-la.

Na homeopatia, o Viscum album foi experimentado e documentado desde 1830, com indicações para hipertensão, diabetes e condições inflamatórias e articulares.

No início do século XX, a medicina antroposófica — a partir dos estudos de Rudolf Steiner — trouxe uma perspectiva nova: a similitude fenomenológica entre o visco e o câncer. O visco é uma planta semiparasita que cresce sobre uma árvore hospedeira, não respeita o heliotropismo habitual (cresce em todas as direções, inclusive para baixo), floresce no inverno quando outras plantas não florescem. Há nessa planta algo que foge às hierarquias naturais — assim como o câncer, que é uma célula que se multiplica de forma desordenada, sem respeitar a função para a qual foi projetada.

A homeopatia e a antroposofia prescrevem pelo princípio da similitude. A medicina convencional chegou ao Viscum album por outro caminho: pela robustez das evidências científicas acumuladas ao longo das últimas três décadas.

É esse o ponto singular dessa planta: ela é aceita e prescrita por essas três racionalidades médicas — a homeopática, a antroposófica e a convencional — cada uma com seus próprios fundamentos, mas todas reconhecendo seu valor.

Como o Viscum album atua no organismo

As informações a seguir têm caráter exclusivamente educativo. Pacientes em tratamento oncológico devem sempre consultar seu oncologista antes de iniciar qualquer terapia complementar.

O Dr. Lucas detalhou os mecanismos pelos quais o Viscum album tem sido estudado no contexto oncológico. Vale compartilhar, de forma acessível, o que a pesquisa vem mostrando.

Ação citotóxica sobre células tumorais. Há muitos estudos — in vitro e in vivo — documentando a capacidade do Viscum album de agir diretamente sobre células cancerígenas. No Brasil, a médica veterinária Dra. Ana Catarina Viana Valle, doutora em Genética e Biotecnologia com ênfase em Viscum album, tem investigado essa ação em potências dinamizadas — um campo ainda em desenvolvimento, com resultados preliminares apresentados em congressos científicos da área.

Inibição da neovascularização tumoral. Para crescer, um tumor precisa criar novos vasos sanguíneos que o nutram. O Viscum album tem mostrado, em pesquisas — inclusive de laboratórios veterinários brasileiros —, capacidade de inibir esse processo, o que pode dificultar a nutrição e o crescimento do tumor.

Modulação imunológica. O Viscum album estimula células do sistema imunológico — como células T e células NK (natural killer) — que participam naturalmente do combate a células tumorais. Essa linha de ação dialoga, inclusive, com o que a medicina convencional tem desenvolvido por meio dos imunoterápicos no tratamento do câncer.

Efeito analgésico. Há evidências de que o Viscum album aumenta a produção de beta-endorfinas, contribuindo para a redução da percepção de dor — o que pode ter importância relevante no acompanhamento de pacientes oncológicos.

O Viscum album pode ser prescrito em dose ponderal (em miligramas, com efeito farmacológico convencional) ou em potências dinamizadas (como em preparações homeopáticas). Dependendo da árvore hospedeira em que cresce, sua composição em lectinas e viscotoxinas varia — e essa variação influencia sua indicação para diferentes tipos de neoplasia.

É uma planta amplamente utilizada em países europeus, especialmente na Suíça e na Alemanha, onde médicos convencionais a prescrevem regularmente, inclusive dentro de hospitais.

Uma prescrição com protocolo — mas individualizada

Uma das coisas que o Dr. Lucas deixou bem clara é que o Viscum album, apesar de ter protocolos de prescrição estabelecidos, não é uma receita única aplicada a todos.

A potência, a dose, a frequência de aplicação (geralmente subcutânea) — tudo isso é ajustado de acordo com o estado geral do paciente, o tipo e a localização da neoplasia, e a resposta que ele vai apresentando ao longo do tratamento.

Um paciente idoso e debilitado, por exemplo, receberá uma prescrição mais suave — porque o organismo também responde ao estímulo do Viscum album, e essa resposta demanda energia vital. Numa aplicação subcutânea, é normal surgir uma pequena reação local — um leve inchaço no ponto de aplicação — que representa exatamente o sistema imunológico reconhecendo o estímulo e se ativando.

Essa é a medicina que o Dr. Lucas descreve como o melhor dos mundos: um protocolo com embasamento científico sólido, que ao mesmo tempo permanece sensível à singularidade de quem está à frente.

Quando buscar esse tipo de cuidado

O Viscum album é uma terapêutica complementar — o que significa que não substitui o acompanhamento oncológico convencional. Ele pode caminhar ao lado de outros tratamentos, como parte de uma abordagem integrativa, sempre com indicação e supervisão médica.

Se você ou alguém próximo está atravessando um diagnóstico oncológico e tem curiosidade sobre o que a medicina integrativa pode oferecer como suporte, vale buscar um médico com formação nessa área para uma conversa individualizada.

Cada situação é única. E o cuidado precisa ser também.

Quer entender melhor o que a medicina integrativa pode oferecer no seu caso?

Conversar com a Dra. Gissele

Assista ao episódio completo

Se essa leitura despertou algo, o episódio vai mais fundo. Assista à conversa completa com o Dr. Lucas Franco Pacheco:

LP
Dr. Lucas Franco Pacheco

Médico formado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), com título de especialista em Homeopatia pela Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB) e pela Associação Médica Brasileira (AMB). É coordenador da pós-graduação em Homeopatia da Plenitude Educação, autor do livro Febre Sem Medo e coautor do capítulo “Homeopatia” no livro Medicina Integrativa na Prática Clínica. Foi presidente da AMHB Jovem e diretor da Associação Paulista de Homeopatia por duas gestões. Palestrante em congressos nacionais e internacionais — incluindo o Congresso Mundial de Médicos Homeopatas (LMHI) —, ministra cursos nas áreas de Viscum album, terapia detox e homeopatia integrativa no autismo e TDAH. Atende em Amparo (SP) e por teleconsulta. Instagram: @dr.lucashomeopatia

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Nenhuma informação aqui substitui uma consulta médica individualizada. Cada pessoa é única — e o cuidado também precisa ser.

Referências

Revisões sistemáticas e meta-análises clínicas

  1. Kienle GS, Kiene H. Influence of Viscum album L (European mistletoe) extracts on quality of life in cancer patients (Integrative Cancer Therapies, 2010)
  2. Kienle GS et al. Viscum album L. extracts in breast and gynaecological cancers (Journal of Experimental & Clinical Cancer Research, 2009)
  3. Ostermann T et al. Survival of cancer patients treated with a fermented Viscum album L. extract (Iscador) (Complementary Medicine Research, 2020)

Atividade citotóxica e antitumoral

  1. Yosri N et al. Immunomodulatory activity and inhibitory effects of Viscum album on cancer cells (Planta Medica, 2024)
  2. Carvalho AC, Bonamin LV. Viscum album (L) extracts in cancer treatment: systematic review (International Journal of High Dilution Research, 2015)

Inibição da angiogênese tumoral

  1. Yoon TJ et al. Inhibitory effect of Korean mistletoe extract on tumour angiogenesis and metastasis (Cancer Letters, 1995)
  2. Elluru SR et al. Antiangiogenic properties of Viscum album extracts (Anticancer Research, 2009)

Modulação imunológica

  1. Yoon TJ et al. Antitumor activity of the Korean mistletoe lectin attributed to activation of macrophages and NK cells (Archives of Pharmacal Research, 2003)
  2. Braedel-Ruoff S. Immunomodulatory effects of Viscum album extracts on natural killer cells (Forschende Komplementärmedizin, 2010)
  3. Elluru S et al. Viscum album neutralizes tumor-induced immunosuppression in a human in vitro cell model (BMC Complementary Medicine and Therapies, 2017)

Efeito anti-inflamatório e analgésico

  1. Elluru SR et al. Viscum album exerts anti-inflammatory effect by selectively inhibiting cyclooxygenase-2 (PLOS ONE, 2011)
  2. Orhan DD et al. Anti-inflammatory and antinociceptive activity of flavonoids isolated from Viscum album (Journal of Ethnopharmacology, 2006)

Qualidade de vida em pacientes oncológicos

  1. Kim KC et al. Quality of life, immunomodulation and safety of adjuvant mistletoe treatment in gastric carcinoma (BMC Complementary and Alternative Medicine, 2012)

Pesquisa brasileira em desenvolvimento

  1. Valle ACV et al. Ultradiluted Viscum album D3 inhibits the growth of human osteosarcoma cells (V International Workshop on Homeopathy of UFRJ & XXXIV GIRI, 2021)
  2. Valle ACV et al. Breast cancer cells are more sensitive to homeopathic Viscum album (200CH) than mesenchymal stem cells (2020)