Quando um médico diz “você tem isso”, algo muda dentro de nós. Não é só uma informação — é quase uma sentença. A palavra diagnóstico carrega um peso que vai muito além do nome da doença: ela molda a forma como a pessoa se vê, o que espera do futuro e o quanto acredita que pode melhorar.

Mas e se esse peso fosse, em grande parte, desnecessário?

Neste primeiro episódio do Pense Homeopatia — conversas com propósito de curar, conversei com o Dr. Rubens Dolce Filho — médico homeopata com mais de 35 anos de prática clínica, professor de pós-graduação em homeopatia, autor do livro Homeopatia: o reino animal e atual presidente da APH (Associação Paulista de Homeopatia) — sobre um tema que me é muito caro: diagnóstico não é destino.

O que você vai ler aqui vem dessa conversa. Uma conversa que começou como uma reflexão filosófica e terminou como um convite à esperança.

O diagnóstico como rótulo — e o que ele deixa de ver

Existe uma imagem que ficou na minha cabeça depois dessa conversa: o diagnóstico como um carimbo.

“Você tem lupus.” “Você é hipertensa.” “Você é diabética.” Repare na construção: não é “você tem uma condição” — é “você é a doença”. Como se a pessoa não pudesse existir sem aquilo.

A medicina encontrou no diagnóstico uma forma útil de organizar o pensamento clínico: agrupam-se pessoas com sintomas parecidos, criam-se protocolos, definem-se tratamentos. Há muito progresso aí — e isso merece ser reconhecido. Mas há também um ponto cego.

O diagnóstico capta o momento em que a doença já é visível, já tem nome, já tem exame que a confirma. Ele não captura tudo o que aconteceu antes — os meses ou anos em que o corpo foi pedindo socorro de formas que os exames não conseguiam nomear. E não captura, sobretudo, quem é a pessoa que carrega aquele nome. Porque ela é muito, muito mais do que o seu diagnóstico.

As três fases do adoecimento que a medicina nem sempre alcança

O adoecimento, nessa perspectiva, costuma acontecer em três momentos que se sucedem — geralmente ao longo de muito tempo:

Primeira fase — os sinais que o corpo dá e que ninguém vê. A pessoa começa a sentir coisas: uma dor de cabeça recorrente, um formigamento que aparece e some, um cansaço que não tem explicação. Ela vai ao médico, faz exames — e tudo “dá normal”. A frase clássica: “fui ao médico e não acharam nada.” Mas ela está sentindo. E esse sentir já é informação.

Segunda fase — o corpo começa a funcionar de forma diferente. O sono muda. A menstruação desregula. A digestão fica lenta. A energia some. Ainda não há um nome para isso — mas há um padrão se formando.

Terceira fase — a patologia aparece. Agora há algo a nomear. Uma gastrite. Uma asma. Uma psoríase. É aqui que a medicina convencional entra com força — diagnóstico, tratamento, protocolo. Mas a pessoa já estava adoecendo há muito tempo antes disso.

O diagnóstico, nesse sentido, é a ponta de um iceberg. E tratar só a ponta — sem olhar para o que está submerso — é uma escolha que pode manter a pessoa presa ao ciclo de adoecimento por muito tempo.

A pessoa inteira adoece — não só o órgão

Quando há um diagnóstico localizado — “tenho problema no estômago”, “tenho problema na tireoide” — existe a impressão de que só aquele órgão está comprometido. O resto do corpo está bem.

Mas não é assim que o organismo funciona.

Somos sistemas complexos — no sentido técnico mesmo da expressão. Trocamos matéria, informação e energia com o ambiente o tempo todo. Não somos uma soma de partes independentes: somos uma rede, onde tudo se comunica.

Quando uma parte adoece, é o organismo inteiro que está respondendo. As células “vibram” num estado diferente — não só aquelas do órgão afetado. E quando se trata apenas do sintoma localizado, sem olhar para esse todo, a tendência é que o problema se desloque ou retorne.

A medicina reconhece isso — a psicossomática existe dentro dela. Mas há uma separação que na prática acontece com frequência: o somático fica com o médico, o psíquico vai para o psicólogo, e os dois raramente conversam sobre a mesma pessoa.

O caso da criança que “tem asma”

Crianças com asma e bronquite recorrente aparecem muito no meu consultório. E a história costuma se repetir de uma forma que me fez pensar muito durante essa conversa.

A mãe volta a trabalhar quando o bebê tem quatro ou cinco meses. A criança vai para a creche. Começa uma sequência — resfriados, faringites, amigdalites, antibióticos. Uma fase que pode durar meses. E então, numa dessas crises, aparece o chiado. O diagnóstico de asma.

A partir daí, a criança passa a ser “asmática”. Inicia o tratamento com broncodilatadores e corticoides inalatórios — medicamentos importantes para o controle das crises. E a família, aliviada com a estabilidade, muitas vezes não sabe que existe um caminho complementar a percorrer.

Mas o que aconteceu antes disso? O que levou o sistema imunológico daquela criança a entrar em colapso repetidamente?

Uma das reflexões que mais me tocou nessa conversa foi esta: talvez o que adoeça a criança não seja só o contato com vírus e bactérias na creche — mas a separação do vínculo materno. Um bebê que passou os primeiros meses em contato constante com a mãe — sentindo o cheiro dela, ouvindo o coração que já conhecia desde dentro — e que de repente se vê num ambiente estranho, sem essa presença. Isso é um estresse real. E todas as crianças naquela salinha estão passando pelo mesmo estresse.

Isso não é culpa da mãe. Sou mãe, e meus filhos também foram para o berçário cedo. A nossa realidade muitas vezes não oferece outra escolha. Mas entender esse contexto ajuda a ver a criança como ela é: alguém que reagiu da forma que podia a uma situação que foi além da sua capacidade de adaptação naquele momento.

E quando se olha para essa criança com esse olhar — individualizando, entendendo como ela específica reagiu a essa história —, o tratamento homeopático pode oferecer uma resposta surpreendentemente rápida. Crianças têm uma vitalidade extraordinária. A história de doença delas é curta. E quando o tratamento encontra a criança de verdade, a recuperação pode ser muito mais completa do que o diagnóstico fazia supor.

O que a epigenética nos ensina sobre genes e saúde

“É genético” — uma das frases que mais fecha portas nas consultas médicas. Como se a herança familiar fosse uma sentença irreversível.

Mas há um campo que tem crescido muito nas últimas décadas e que traz uma perspectiva diferente: a epigenética. Um livro que entrou na conversa como indicação de leitura foi A biologia da crença, de Bruce Lipton — uma obra de divulgação científica que apresenta, de forma acessível, conceitos do campo da biologia celular e epigenética. Está disponível também como audiolivro no Spotify, para quem prefere ouvir no caminho do trabalho.

A ideia central é esta: os genes não são deterministas. Eles são produtores de proteínas — e o que decide quais genes serão ativados ou silenciados é a interação da célula com o seu ambiente. A membrana celular, que faz essa interface com o mundo externo, é quem manda as mensagens para o núcleo.

Traduzindo para o dia a dia: ter uma predisposição genética para determinada condição não significa que você vai desenvolvê-la. O ambiente — incluindo o estado emocional, o estilo de vida, as relações, os eventos que marcaram a história — tem um papel ativo nessa expressão.

Isso não tira a responsabilidade da genética. Mas devolve à pessoa uma margem de movimento que o determinismo genético costuma negar.

Uma mensagem de esperança para quem carrega um diagnóstico

Perto do final da nossa conversa, surgiu uma frase que ficou ressoando em mim:

Tem jeito. Só não tem jeito para a morte. O resto, tudo tem jeito.

Não como promessa de que tudo se resolve facilmente, mas como algo mais sutil — e mais verdadeiro: o diagnóstico é uma fotografia de um momento, não uma previsão definitiva do futuro.

O corpo tem sistemas de autorregulação incríveis. Quando a pessoa encontra um cuidado que a enxerga como um todo — que pergunta não só “qual é o diagnóstico”, mas “o que essa pessoa está vivendo, sentindo, carregando” —, a capacidade de resposta pode surpreender.

Encarar a doença como um sinal — não como um inimigo, mas como uma linguagem — é uma mudança de postura que pode abrir caminhos que o olhar exclusivamente patológico fecha.

Carrega um diagnóstico e quer entender o que está por trás dele?

Conversar com a Dra. Gissele

Quando buscar uma avaliação integrativa

Se você está num momento em que:

  • recebeu um diagnóstico que parece definitivo e quer entender o que está por trás dele
  • convive com sintomas que os exames não explicam
  • sente que o tratamento que você faz controla, mas não transforma
  • tem uma criança com infecções recorrentes, asma ou alergias que não cedem
  • quer integrar o cuidado homeopático ao acompanhamento que já faz

… pode ser o momento de conversar.

A consulta que ofereço não começa pelo diagnóstico. Começa pela pessoa. Pelo que ela carrega, pelo que sente, pela história que trouxe até aqui.

Assista ao episódio completo

Esta conversa merece ser ouvida na íntegra.

RD
Dr. Rubens Dolce Filho

Médico homeopata com mais de 35 anos de experiência clínica. Professor de cursos de pós-graduação médica em homeopatia, autor do livro Homeopatia: o reino animal e atual presidente da APH (Associação Paulista de Homeopatia). Siga no Instagram: @dr.rubensdolcefilho

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Nenhuma informação aqui substitui uma consulta médica individualizada. Cada pessoa é única — e o cuidado também precisa ser.