Tem uma pergunta que aparece com frequência quando as pessoas descobrem que sou médica homeopata: mas como uma dermatologista foi parar na homeopatia?

A resposta nunca é simples. E no episódio 7 do Pense Homeopatia — conversas com propósito de cuidar, conversei com a Dra. Lianne Negrão — médica pediatra e homeopata que atua no interior do Pará e tem uma história parecida com a minha — sobre exatamente isso: o que leva uma médica formada pela alopatia a se apaixonar pela homeopatia a ponto de mudar o rumo da sua prática?

O que você vai ler aqui é uma tentativa de traduzir essa conversa. Não como uma defesa da homeopatia — ela não precisa de defesas. Mas como um convite à compreensão de por que tanta gente que estuda medicina acaba encontrando nela algo que não esperava encontrar.

Quando a homeopatia chega pela porta da necessidade

A Lianne entrou na homeopatia como paciente. Não como pesquisadora, não movida por curiosidade intelectual — mas por uma situação real, concreta, que a medicina convencional não estava conseguindo resolver de forma satisfatória para ela.

Ela tinha infecções urinárias de repetição. Usava antibióticos com intervalos curtos, sem uma causa identificável que justificasse aquela recorrência. A perspectiva que se desenhava era de uso contínuo de antibiótico preventivo — uma solução que ela, como médica, sabia que tinha limitações.

Foi nesse impasse que ela procurou a homeopatia. E o que aconteceu depois transformou não só a sua saúde — transformou o modo como ela exercia a medicina.

Eu me reconheço nessa história. Porque a gente que está na clínica sabe que há situações em que o recurso disponível resolve o hoje — mas não o amanhã. E é exatamente nessa lacuna que muitas pessoas acabam encontrando a homeopatia.

O que a homeopatia trata que às vezes escapa à medicina convencional

Uma das coisas que a Lianne descreveu com muita clareza foi a sensação de impotência diante dos chamados “sintomas estranhos”. Aquelas queixas que não se encaixam num diagnóstico limpo, que não têm exame que as confirme, que ficam à margem da consulta porque o médico não sabe muito bem o que fazer com elas.

Na alopatia — ela dizia — a gente olha para o sintoma, para o diagnóstico, para o que é palpável. É assim que fomos treinados. Mas há muito do que o paciente vive que não está no exame, não está no CID, e por isso não cabe na prescrição.

A homeopatia faz perguntas diferentes. Ela não pergunta somente qual é a doença. Ela pergunta também quem é essa pessoa, como ela pensa e sente e como reage a tudo o que vive.

Isso não significa que ignora o diagnóstico. Significa que inclui o que vem junto com ele — os medos, os padrões, a história, o modo como cada corpo responde ao que a vida apresenta. E é justamente esse conjunto que orienta a prescrição.

Para mim, isso é o coração da prática homeopática. E é uma das razões pelas quais pessoas que chegam com queixas desconexas entre si — que o médico nunca conseguiu reunir num só quadro — às vezes encontram nessa escuta ampliada um caminho que não encontraram em outros lugares.

Por que o efeito não é necessariamente lento

Existe uma ideia muito comum de que a homeopatia é lenta. Que é preciso esperar meses para notar qualquer diferença. E eu entendo de onde vem essa percepção — porque em quadros crônicos, sim, o processo pode levar tempo.

Mas o que a Lianne trouxe foi outra dimensão dessa história: em alguns casos, a resposta pode ser surpreendentemente rápida.

Ela descreveu, por exemplo, como um medo intenso de lugares fechados — que a acompanhava há anos — se desfez nos primeiros dias após o início do tratamento. Antes mesmo de perceber outras mudanças, essa foi a primeira coisa que notou: uma leveza onde antes havia ansiedade.

Não é uma promessa universal. O tempo de resposta depende da pessoa, do quadro, da história. Mas a ideia de que a homeopatia só age devagar é um mito que merece ser questionado.

O que acontece, muitas vezes, é que a mudança começa por onde menos se espera. Em algo que a pessoa nem havia identificado como problema — justamente porque já havia se acostumado a carregar.

O que aprendi olhando para a pessoa inteira

A Lianne contou de uma cena que ficou com ela. Sua professora de homeopatia, durante a formação, atendeu sua mãe — uma paciente com muitas queixas, do tipo que o médico generalista não sabe muito bem por onde começar.

Quando ela foi ler sobre o medicamento que a professora havia prescrito, leu a matéria médica — a descrição daquele remédio — e ficou emocionada. Porque o que estava escrito ali descrevia a mãe dela com uma precisão que ela, como filha e como médica, nunca havia conseguido reunir em palavras.

Esse momento foi revelador. Porque mostrou que existe um modo de olhar para uma pessoa — a sua totalidade, o conjunto de como ela sente, reage, adoece, relaciona — que vai muito além do diagnóstico convencional.

Não é misticismo. É observação cuidadosa, sistemática, treinada ao longo de séculos. É a capacidade de ouvir o que está sendo dito — e também o que não está.

Segurança e continuidade: um diferencial que importa

Foi levantado um ponto que eu também valorizo muito: a estabilidade do repertório homeopático.

Um aspecto que valorizo na prática homeopática é a estabilidade do seu repertório ao longo do tempo. Os medicamentos homeopáticos têm uma trajetória de uso muito longa — e o que a experiência clínica acumulada tem feito é ampliar as indicações já conhecidas, não revisá-las por questões de segurança.

Isso não significa que a homeopatia seja superior a qualquer outra abordagem. Significa que ela oferece, como complemento, uma base terapêutica de longa data — que pode ser integrada com tranquilidade ao acompanhamento médico convencional que o paciente já realiza.

Uma história que ficou comigo

A Lianne compartilhou um caso que me tocou profundamente. Como todos os casos que compartilho, reproduzo aqui de forma anonimizada, sem identificação de paciente.

Uma criança pequena, com suspeita de transtorno do espectro autista, chegou ao consultório após um ano sem retorno. A mãe havia levado por causa de uma febre — mas o que chamou atenção foi a cena na sala de espera: a criança gritava desde longe, se segurava na porta, os olhos apavorados, sem conseguir entrar.

Em pouco tempo de conversa, a Lianne perguntou à mãe sobre a gestação. E a mãe começou a descrever: uma gestação marcada por muita angústia, por mudanças bruscas, por um medo intenso que a tomou no final do dia, todas as noites.

Com esses dados — a gestação da mãe, o perfil da criança — ela repertorizou e prescreveu uma dose única.

Uma semana depois, a criança voltou. Entrou no consultório. Ainda no colo do pai, mas sem choro, sem aquele olhar de fuga e terror que estava lá na semana anterior.

A mãe relatou que, no dia seguinte ao remédio, a criança já havia ido à terapia — e havia ficado na sala.

Eu não conto essa história para dizer que a homeopatia resolve qualquer situação, nem para prometer resultados. Cada caso é único. Mas conto porque ela ilustra algo que a homeopatia oferece de forma adicional: a possibilidade de acessar um estado que vai além do sintoma visível, e que às vezes começa antes mesmo do nascimento.

Um convite para você

Se você chegou até aqui, provavelmente já ouviu falar de homeopatia — mas talvez não tenha ouvido o que precisava ouvir para entender o que ela é, de verdade.

Terminamos o episódio com um convite: experimente em você. Não com base no que alguém disse no Google, não com base em polêmicas que você leu por aí. Mas com uma consulta real, com um médico homeopata, com espaço para a sua história ser ouvida de verdade.

Porque a homeopatia não é uma ideologia. É uma prática clínica — com séculos de desenvolvimento, com produção científica disponível em bases como a BVS, e com um modo de ver o paciente que, uma vez experimentado, é difícil de esquecer.

Quando considerar uma consulta

Se você se reconhece em alguma dessas situações, pode ser um bom momento para buscar uma avaliação integrativa:

  • Quadros que se repetem sem resolução definitiva
  • Sintomas que “não encaixam” num diagnóstico convencional
  • Sensação de que o tratamento atual cuida do sintoma, mas não da origem
  • Desejo de uma abordagem que olhe para você como um todo — corpo, história, emoções

A consulta homeopática não substitui nenhum acompanhamento médico que você já tenha. Ela se soma a ele.

Já sentiu que o tratamento cuida do sintoma, mas não da origem?

Conversar com a Dra. Gissele

Assista ao episódio completo

O Episódio 7 do Pense Homeopatia — Conversas com propósito de curar é uma conversa entre duas médicas — a Dra. Lianne Negrão, pediatra e homeopata, e eu — sobre o que a homeopatia fez por nós, pelas nossas famílias e pelas nossas práticas.

LN
Dra. Lianne Negrão

Médica pediatra com mais de duas décadas de prática clínica e especialista em homeopatia. Atua em Abaetetuba e Acará, no Pará, onde também é médica concursada. Faz parte da diretoria da Associação Médica Paraense de Homeopatia e é preceptora na Afya Clínica Acadêmica de Abaetetuba — onde acompanha a formação de novos médicos com o olhar integrado da pediatria e da homeopatia. Instagram: @dra.liannenegrao

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Nenhuma informação aqui substitui uma consulta médica individualizada. Cada pessoa é única — e o cuidado também precisa ser.